quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018
2042.6
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
2042.5
terça-feira, 1 de agosto de 2017
2042.4
sábado, 7 de julho de 2012
2042.3
2042.2
Na ala leste do muro viu porém uma secção do mural que dizia com uma borboleta: "Eu tenho os sonhos intactos" e despediu todas as discípulas da sua presença e abandonou o muro.
Nisto, passava por uma lixeira onde duas mulheres escavavam, fartas e saudáveis, noutro lugar duas mulheres banhavam-se em notas - mas as notas nada valiam e as mulheres emagreciam.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
2042.1
Babalith sentou-se e ouvindo os desabafos do povo reparou como uma ligeireza falsa e podre tomara conta do seu mundo. Uma lhe dizia: "Fulana abandonou-me quando mais precisava, mas é a bondade da vida que retira do nosso caminho os que não pertencem à nossa vitória" e esta foi Babalith trair o mais que pôde, porque quem não é capaz de reconhecer a crueldade menos reconhecerá a verdade, e quem não está com a verdade é infértil e impotente nas suas mentiras. E outra mulher disse: "não existem pessoas certas umas para as outras, mas pessoas imperfeitas que encontram alguém de quem aceitem as imperfeições e de quem as suas imperfeições sejam aceites" e a estas Babalith mutilou para deixar ao circo porque antes eram imbecis, sonolentas e inúteis.
Ao canto um bando de mulheres jogava um horóscopo em que cada uma era uma deusa, e Babalith desejou que fossem ao menos animais.
E na telefonia diziam: "milhares de anos de religião levaram-nos à idade média, 200 anos de ciência levaram-nos à Lua", mas Babalith era demasiado inteligente para ter percebido alguma coisa do que acabara de ouvir.
sábado, 9 de outubro de 2010
VI. A
Babalith não comia nem bebia, mas o astro azul chovia sempre e isso bastava.
Disse-lhe:
"Estas são as regras mais básicas do tonalismo da linguagem. Há também a conhecer que qualquer música se faz com o silêncio, em que os sons são utilizados somente para manipular este silêncio e leva-lo à sublime dança. Assim farás com as tuas palavras, que diga mais o que está entre elas, e o diga de forma concisa e estruturada, do que aquilo que acaba nelas."
Continuo depois:
"Isto sendo sabido, e as matemáticas estudadas, e depois de muitas horas a escutar o mundo com os ouvidos, a pele, os olhos, o olfacto e o gosto, e que o corpo tudo isso imite, abrindo-se do avesso, aprendereis a falar o português enquanto língua do Universo. Letra a letra, palavra a palavra (e esta ainda não é, pois, a dança)."
"Comecemos pelas palavras da letra A. Pois experimentei o som A. A boca abre-se e o ar passa livremente, a língua não se interpõe. O A é pois semelhante às coisas aéreas e à abertura dos céus, e a muitos alívios da alma e do corpo. O peito suspende-se, como se levitasse, e o sangue sobe ao intelecto, à zona cerebral."
"Ora experimentemos a palavra Abade. O B é nos lábios como uma membrana que se rompe, a passagem de uma porta, uma graduação ou uma sublimação, e sendo um som especialmente sentido na zona nasal liga-se muito à sensibilidade do intelecto (o olfacto é um instinto primordial). O D estimula, com a língua batendo no céu da boca e o peito badalando, a zona entre os olhos e a testa, pois a capacidade visionária e a consciência. o E, como em "Abade", é sobretudo manifestado como uma vibração da garganta para o exterior, e a garganta liga-se aqui com a vontade de comunicar, mas também, na sua exteriorização e na vibração das glândulas gustativas, com a fome, não sendo de admirar que a imagem do abade seja aquela de um homem farto."
"Concluímos daqui que o abade é um homem dedicado a governar outros homens, um artista do intelecto e das ciências da consciência. Abade, musicalmente, pode-se traduzir da seguinte forma."
'Imenso céu (A), ao beijo das mulheres (B) um campo aberto (A)
Maçã, o coração uma serpente (D), palavra e corpo intermitente (E).'
"É esta configuração, este conhecimento da sensualidade do espírito e do impulso da tentação, mantida em tensão/relaxamento criativa, que o faz viril. Abade vem de Pai, e era, em todo o caso, o pai espiritual."
"Mas avancemos com outros exemplos, como 'Amar'. O M vibra desde os pés até ao que se parece sentir como uma zona acima da própria cabeça. É uma existência do corpo que se rende e entrega à sensação, é um corpo feito mar. 'A' - 'mar', a abertura do mar, o evanescente da mente aberta solidificando-se em sensação, em paz e sentimento e um prazer intenso só possível a partir dessa paz e desse sentimento. R, como em amar, cela a palavra, ele é como um abraço, é onde a língua retém o fluxo musical."
"Não fugindo muito à primeira exemplificação:
'Imenso céu, rendido no cálice da manhã,
Planície vasta, o fogo do lar e o afã.'"
"Assim se disse amar."
"Ou, se queremos pronunciar a palavra 'Ar':
'Céu imenso, que abraço e nunca venço'"
domingo, 12 de setembro de 2010
V. Processo de Harmonização
"Do Processo de Harmonização, isto há a saber" prosseguiu o astro azul.
Para começar, escrevemos um acorde em estado fundamental e outro em Iª inversão.
{A silhueta das casas alberga o cansaço. A manhã soletra o desejo demorado.}
Colocamos duas cadências, uma primeira, neste exemplo, picarda, e uma segunda, evitada.
{A silhueta das casas habita a insónia. A manhã soletra.}
Depois colocamos o I do primeiro acorde também no segundo acorde.
{A silhueta das casas uiva a insónia. A sombria manhã murmura.}
De seguida, procuramos formar um encadeamento do tipo II.
{O anoitecer uiva a silhueta das casas. A sombra do monte abafa um murmúrio matinal.}
Horned Wolf
sábado, 11 de setembro de 2010
IV. Harmonia das Quatro Vozes
Passemos pois às normas para a harmonia a quatro vozes. Uma a do Leão, outra a do Anjo, uma a do Touro e outra a da Serpente. A do Leão, como a do Anjo, é voz superior, a da Serpente, como do Touro, a outra. A insistência numa só delas provoca um efeito forçado e anormal. Na distribuição das notas pelas quatro vozes resulta um maior equilíbrio se existem intervalos mais breves entre as vozes superiores, não ultrapassando as oito notas.
Exemplo :
"O rugido do deserto (leão) bebe o coração do peregrino (anjo). Este, exausto, enterra-se na luz granulada (leão). Nascem rosas ali, onde o sangue da sua alma cadente suporta a areia (anjo). Depois, a ventania cessa o silêncio das vozes múltiplas (serpente), e constroi, estático, o corpo da morte (touro): uma coluna de fogo (leão), o rodopio luxurioso dos defuntos revoltosos (anjo): nada, mas as cearas (touro)."
Importa conseguir uma consistência vertical, para tal, é possível a supressão da 5ª (ficando subentendida) mas nunca da 3ª (que não deve estar nas vozes superiores), e verificar a existência de 3 fundamentais. Assim:
"A criança, gasta, lança dúvidas ao astro."
Na esfera musical, o astro é a fundamental, as dúvidas a 5ª e a criança a 3ª. Mas a criança é sempre leão. Vamos alterar a sentença de forma a obedecer aos nossos requisitos.
"O camponês, restaurado, sente o corpo percorrer campo, astro e fado."
Ou, sem a 5ª, "O camponês, restaurado, é campo, astro e fado."
A verticalidade denota-se não na sensação da altura ou da vertigem, mas no sentimento unitivo. É necessário ainda duplicar uma das notas. No ponto de repouso fica bem duplicar uma das fundamentais, neste caso, poderíamos usar um amplificador para o astro.
"O camponês, restaurado, sente o astro pelo campo, céu e fado."
Horned Wolf
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
III. A Hierarquia dos Acordes
"Sobre a música, o principal a saber é a dança, porque na dança está ser-se a terra. Mas não chegamos ainda a essa etapa. Estamos agora na hierarquia dos acordes. Examinemos esta canção:"
"{Abandona a adoração. A luz, sozinha, deseja a noite.}"
"O gráfico musical da sentença mostra-se:"
"{Abandona, solitária, a luz. O desejo adora a noite.}"
"Em que a solidão (V) é mais estável do que a luz (IV), principalmente devido à irresistível função ascendente em direcção ao abandono (I), coincidente com a ascendente da sensível, que se lê:"
"{A noite adora o desejo, e a luz, sozinha, o abandono.}"
"A solidão (V) é a tonal, ou seja, a forma do restante encadeamento, o que não se verifica com a luz (IV) excepto pela solidão sendo pois ela, em última instância, a definir o grau (a forma)."
"A noite, o desejo, o abandono, todos possuem os contornos da solidão, mas esta solidão só existe no corpo luminoso."
"Há, pois, a cabeça musical desta composição {A luz sozinha, o abandono.} da qual todas as fundamentais necessitam de ficar fora, sendo elas a adoração e a noite: da noite nasce o desejo e a luz, e da adoração nasce o abandono. No caso de - Abandona a adoração - contamos 3 notas. Existe ainda uma dimensão profunda do estudo musical, por exemplo, dentro do acorde, podemos dizer que a solidão (V) está na noite (VII), ou seja, obtemos V7."
"A proximidade da luz (IV) e do desejo (II) reflecte funções semelhantes:
"{Abandona, sozinho, o desejo. A luz adora a noite.}"
"{Sozinho (V), o abandono (I)} é considerada a cadência perfeita e a ascendente da Sensível. A cadência é o momento em que a música atinge um ponto de repouso, e significa cair, que deve coincidir, como nas artes malditas, com a ascendente."
"O abandono (I) é a palavra mais estável. A cadência plagal mostra-se {Luminoso, o abandono}, e é menos forte que a cadência perfeita."
"{Abandona, solitária, a luz. O desejo adora a noite.}, neste caso, a penúltima palavra é uma fundamental, mas não no 1º caso {Abandona a adoração. A luz, sozinha, deseja a noite.}, em que perde estabilidade musical, não deixando de ser conclusiva."
"Existem depois várias formas de cadência. Por exemplo, a Cadência Evitada {Abandona, sozinho, a luz. O desejo.}, ou a Picarda, muito utilizada na música renascentista e que substitui a 3ª Menor do último acorde por uma Maior."
{A noite adora o trono:
A luz desconsiderada, o abandono.
A morte debanda sem retorno:
A luz exilada, o abandono.}
"Começas pois a perceber que cada coisa pode ser toda a coisa, mas quando se dança, tudo isso é carne."
Horned Wolf
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
II. Encadeamentos
"Abandona a adoração", prosseguiu a mulher-astro. "Não serás atraída por estrelas, a luz é apenas sequiosa da noite", e de seguida, avançou.
"Do encadeamento dos acordes, se dois e com três notas, isto será dito (um asterisco será colocado a assinalar cada nota):
{Tipo I -}
"No lusco-fusco das praças (*) reúnem-se os pintores e as prostitutas (*) de vestidos dispendiosos (*). A janela (*) descobre um homem (*) sem rosto nem desprezo, que observa, silente, a ribeira (*) luzente."
"No tipo um, não se _notam_ notas comuns. E as fundamentais intervalam entre a 2ª (praças) e a 7ª (ribeira). Esta a primeira sequência: lusco-fusco, praças, reúnem-se, pintores e prostitutas, vestidos dispendiosos. Esta a sequência segunda: janela, homem, rosto, desprezo, observa, silente, ribeira, luzente."
{Tipo II -}
"Reúnem-se os pintores e as prostitutas no lusco-fusco das praças cancerosas. A janela encobre um homem sem rosto que observa das praças a ilusão."
"Há uma nota comum, as fundamentais intervalam entre a 4ª e a 5ª."
{Tipo III -}
"Mesclam-se os pintores e as prostitutas nas praças do lusco-fusco. A janela traça um pintor sem rosto que desfigura o contorno da praça."
"Há duas notas comuns, as fundamentais intervalam entre a 3ª e a 6ª."
{Tipo IV -}
"Bailam os pintores e as prostitutas de vestidos airosos no lusco-fusco prateado das praças. O lusco-fusco vê uma meretriz sem rosto nem desprezo, que melancólica recebe estas praças."
"Mostram-se três notas comuns, as fundamentais na 8ª em uníssono."
"O máximo de contraste encontra-se no tipo I e o mínimo no tipo IV. O encadeamento mais perfeito, aquele que melhor soluciona as tensões, é o do tipo II, sendo considerado forte, como o tipo I, que é, todavia, menos conclusivo que o tipo II, por falta de elementos semelhantes. O tipo III, como o IV, é fraco, e menos fraco o III que o IV."
Horned Wolf
I. Acordes
As paredes desvaneceram gradualmente e outro holograma tomou o seu lugar. Várias estrelas desordenadas no vácuo davam ser a um planeta de beleza requintada e brilho azul despontado a prata. A mulher voltou-se para esse planeta e disse a Babalith:
"Eis o que haviam feito os sábios até então, e que não são os sábios de mim em diante: fitaram o mundo belo e o seu conhecimento brotou da sua inveja, com isto, procuraram governar."
A mulher olhou pois mais longamente, e foi tomando os contornos, a textura, o peso, a leveza e os gases de cor daquele planeta. Até que se incrustaram um no outro.
"Esta é a sabedoria de mim em diante. Para governar a terra há que ser a terra."
De seguida, o planeta mulher, que era Júpiter, falou a Babalith com as seguintes palavras:
"A tua viagem será uma excursão à nossa linguagem. Nós falamos de modo idêntico a ti, mas a gramática disposta de forma a não admitir mentira. Antes de a estudar, vem o cantar. Pois o cântico é a fundação do mundo dos anjos."
"Exemplo: Há correntes que levam os habitáculos, correntes de tempo como há correntes de mar, e lavram mais ali do que acolá."
"Há a ver nisto que a correnteza é a nota fundamental, a partir da correnteza ergue-se a casa como o mar sobre o abismo (uma 5º), e o tempo como a casa sobre a pedra (uma 3º). A quinta pode, depois, ser perfeita, se em vez de casa disseres seio, aumentada, se em vez de casa disseres labirinto, ou diminuta, se no lugar de casa houver não o atelier e a biblioteca, mas a cama e a poltrona."
"Exemplo: Há correntes de tempo, como há correntes de mar, que despem os seios, e mais neste ardor do que noutro. Ou: Há correntes de tempo, como há correntes de mar, que lavam os labirintos, e ora mais no desespero ora mais na esperança. Ou: Há correntes de tempo, como há correntes de mar, que arrastam as camas para os sonhos esquecidos."
"A 3º pode ser Maior ou Menor. Assim, move-se a eternidade como se move o mar, onde os habitáculos são velas a brilhar. Ou, se em Menor, acaba-se o momento e escoa-se o mar, deixando nos habitáculos, vazios a crepitar."
"A ver depois isto." continuo o planeta "Se a nota fundamental é a mais grave, diz-se {O vagido da correnteza leva o tempo e come os seios} se a mais grave é a 3º estamos numa Iº Inversão e diz-se {A correnteza dos seios que o tempo chove em cinza}; mas, se é a 5º a mais grave, está em c e é 2º Inversão, como se segue {A correnteza escorrida dos seios teceu o tempo}."
"Relacionando a Fundamental com a Grave obtens o Estado do acorde {A correnteza dos seios que o tempo chove em cinza}, em que as cinzas são a correnteza, e relacionando a Fundamental com Tónica descobres que forma tem a cinza, têm a forma de todos os seios."
Horned Wolf
segunda-feira, 21 de junho de 2010
10.

First Woman - Babalith
Babalith encontrou-se com uma metrópole de vidro branco, e um palácio de papel do qual pendiam esferas de pedra cinzenta. Dentro das paredes de vidro, do solo envidraçado como dos telhados, existiam ainda muitas cidades. De todas as cidades, Babalith sabe que só a cidade onde ela está pode ser irreal, porque é a cidade que corresponde aos seus desejos – é por isso parte do seu sonho tão-somente. Babalith tem ainda de encontrar o outro, esse é o seu empreendimento heróico, o de romper a membrana do sonho.
De veios de cristal uma fonte eléctrica, que sete musas inspiram, ilumina a sala e uma mulher, semelhante a Babalith, faz-se ver.
Disse-lhe ela:
“Apaguei a razão e a loucura dos milhões de anos, rejeitei a herança da humanidade, e sou por isso a primeira mulher. A ignorância purifica o corpo e torna-o sábio. Todos os caminhos, todos os esconderijos da vida, toda a terra havia sido descoberta, mas faltava ainda que fosse corpo vivo em nós, que a descobríssemos em conjunto com a própria. Este é o caminho para o outro, e vós que o outro escolhesteis, em Agharta podereis pisar porque sereis o povo eleito. Não sabe ainda a mulher que a terra é o sol, precisa para isso de descer à bruma da sua profundeza.
Agora, todas as estátuas caíram sobre as cabeças das mulheres, o homem morreu primeiro. Toda a veneração aos ídolos chegou a um fim. A humanidade está morta. Vós ainda não havíeis procurado o outro, e então criastes deuses para companhia: porque o indivíduo não existe sozinho, logo se fragmenta em mil espectros e torna-se putrefacto.”
E viu Babalith que aquela mulher era, na verdade, uma porta.
fim da primeira parte
domingo, 20 de junho de 2010
9.

Babalith and the Great Eye - Babalith
Na sua peregrinação, alcançou Babalith uma câmara vazia de gente onde podia observar vários postais de cidades que conhecera à superfície, mas retratando o seu passado. Por exemplo, cidades com estações de autocarro e pessoas à conversa na paragem, viadutos com carros de vidro aberto, meninas com sombrinhas pousadas debaixo de pinheiros. Vendo estes postais do passado pensou Babalith que fossem retratos do futuro. De lágrimas nos olhos, a si mesma assim falou:
“Tu que procuras companhia, e que a ti própria te procuras, quando te lembrares que o teu coração tudo tem de comum com o do vizinho, sofrerás a tua própria mágoa. Em ti estará tudo o que é vivo e novo. É terrível ficar com os outros, porque nos outros somos nossos juízes. Mas regozija na companhia da tua próxima para que um dia tudo te seja verdadeiro."
Horned Wolf
segunda-feira, 14 de junho de 2010
8.

Fantasy - Babalith
Babalith chegou a uma cidade em meia-Lua, subterrânea, exposta em degraus. Num, catedrais de água, que serviam como piscinas. Noutro, palmeiras cujas folhas eram harpas nas quais as correntes de ar vinham tocar. Noutro, uma grande mesa de mármore fazia uma praça inteira, habitada por vários alimentos. Ninguém percorria a cidade. Por isso, Babalith sentou-se a falar com o mesmo ar que, para ela, tocava harpa.
“Eis que chegou o dia em que o homem olhou a cidade, e se perguntou, que desejo ou terror esconde a cidade? Que pergunta lhe tenho de responder? Outro dia chegou em que o homem olhou o seu próximo e perguntou, que desejo ou terror esconde este indivíduo? Que pergunta lhe tenho a responder? E esse homem era o homem que sonhava com esfinges. Nesse dia o homem refugiou-se das cidades e do próximo, e refugiou-se em si mesmo: nesse dia o homem perdeu-se a si mesmo. No centro da cidade, no centro do outro, e no centro de si mesmo criou dois altares, o Tu, e o Eu. Esse era o homem que sonhou ter banido o Ser. A mulher desse homem ensinou a seguir: amai não o que está próximo, mas o que está longe, não o que é, mas o que virá. Essa mulher populou a cidade de fantasmas e, observando o homem, via uma multidão de espectros. Esse dia, em que um pegou na carne e nos ossos do vizinho, para libação, foi o dia da inauguração da máquina.”
Horned Wolf
sábado, 5 de junho de 2010
7.

Watching You Sleep, Babalith
Deixando as sondas para trás, Babalith vai deparar-se com o inesperado. Numa câmara dos túneis labirínticos encontra homens verdadeiros, adormecidos e circundados por ecrãs e rádios. Contemplou-os durante um dia. Eram persas, turcos, mas a maior parte sírios. No segundo dia, Babalith arrancou um ao seu sono. Mas como que o homem não sabendo falar a língua das mulheres e a mulher não sabendo falar a língua dos homens, puseram-se a contar tudo o que haviam visto e percorrido com mil gestos, saltos, expressões de espanto, de temor, latidos e gemidos, ou puxando das vestes objectos. Cada movimento contava uma história, por exemplo, a palidez da anca era a Lua. O pescoço as torres nos palácios mais altos. Os belos ombros o exército imperial. Do homem, os pés eram vales verdes, a cintura uma floresta de sátiros bêbedos. Nos gestos um do outro, aperceberam-se de um vasto mundo que ainda não havia sido descoberto. Depois o homem, mostrou-lhe uma caveira coberta de musgo, que entre os dentes apertava uma esmeralda, apontou, insistindo, e voltou ao sono.
Pôs-se por isso Babalith a meditar sobre o novo significado de tudo. E falou assim na sua mente:
“Só o terceiro pode levar a conversa de mim para mim às intensidades, pois todas as profundidades que não sejam intensas são abismos artificiais. É com o nosso medo do terceiro que fugimos a nós mesmas e nos abandonamos à morte morta como cadelas traidoras. É preciso, junto de um amigo, cessar toda a guerra, e encontrar por isso paz dentro de nós. Não lhe resistir, apresentarmo-nos perante ele sem máscara, nuas. Depois nunca mais ninguém nos desprezará, porque o desprezo é a própria máscara.”
E fitando, continuamente, o semblante adormecido perto da caveira, pensou seguidamente:
“Tem sido razão da minha angústia que a Mulher durma, como o homem dormiu e depois morreu. Achei que a despertaria com discurso e agitação. Hoje, esse sono é a razão da minha alegria e do meu furor. Estimulada pelo amor, olhando este homem no seu sono, na ondulação do seu peito, é a sua alma que eu vejo, ao vivo, sem véu. Reconheço nisto a chave para despertar. E sabendo ver, com olhos despertos pelo desejo, o outro a dormir, e sendo igualmente vista como aquela que dorme, não seremos mais mulheres e máquinas, mas almas vivas e arrancadas à sua hibernação, comunicando e celebrando os mundos bailantes como numa dança de pétalas ao vento.”
Horned Wolf
terça-feira, 1 de junho de 2010
6.

Babalith at the Gates of Agharta, Babalith
Quiseram expulsa-la mas aproveitando a sua cegueira, e sendo minuciosa, Babalith deixou-se ficar, pois suspeitava de alguma coisa. Percebeu que as zonas escavadas abriam fontes de petróleo, e calculou que a secura que formava o deserto se devia a um mar negro que existia no subterrâneo. Dos túneis, viu sair muitas sondas, e outras entrar. Lá em baixo, talvez encontrasse o reino do seu inimigo, depois do vazio.
Pôs-se a caminho enquanto cantava para as máquinas:
“É bom que procurem o vazio que sustém a terra, tudo o que está tapado pelo chão sabe silenciar-se, e o que é o silêncio, se não a mulher verdadeiramente despida? E a mulher verdadeiramente despida, o que é senão a morte que amamenta a Alma do Mundo? Há bosques que crescem no silêncio, e o não perturbam. Todas as coisas vivas procuram a protecção da treva, e a gostam de nutrir. Sabeis, sondas, de onde a necessidade de escrita? Do comércio apodrecido, o comércio do império da moeda sobre todas as coisas objectivas, do império da coroa que governa sem rei - este amor dos sinarquistas. Não, tudo o de melhor que é representado, torna-se no pior. Cautela, porém, sonda, vós que aprofundais a espada na própria carne, e que penetrais o nosso astro vivo, por serdes profundas deixareis de sofrer, as moscas não sobreviverão no subterrâneo e nem, onde arde o fogo, o verme. Mas existe algo de maior e mais perigoso, esse algo é, como eu, um vampiro. Ele é o Deus a quem ninguém chora ou adula, aquele que ninguém ainda representou: o Rei Lagarto. Este Vampiro existiu no Tempo do Homem, e o seu castelo era o Verbo.”
Horned Wolf
5.

Babalith Seen from the Blind Woman, Babalith
Os ringues imobilizaram-se. As arenas do amor paralisaram. De um terraço chegou-se à frente uma negra com um puma negro atrelado. Todas fitavam Babalith em silêncio, e com um arrepio, reparou a mesma numa cegueira geral, ainda que as máquinas continuassem a desenhar tatuagens na pele nua das mulheres que as não podiam ver. A negra gritou e apontou a vara em direcção a Babalith. “Há uma cega entre nós” As outras urraram em acordo. Os robôs abandonaram Babalith. “É uma louca que vem dos pináculos e, ou enlouqueceu por passar muito tempo nos pináculos, ou a sua loucura leva-a a falar por cima de nós.” Babalith apertou a pelugem do leão branco. “Vejam,” continuo, invisual, a negra, “esta mulher não é nova, no tempo dos homens, chamavam-na de Estado. O que ela chama de amor é a frieza apagada da máquina: ela diz, «eu sou a Mulher», e tem por mulher um código que é todas as mulheres. Nenhuma mulher é como qualquer outra mulher. Esta mulher não está certa, há ainda uma coisa que devemos odiar com a força das entranhas, e essa coisa é o Estado, essa coisa é Babalith. Aprende a falar a língua das pequenas para lhes poder depois mentir. Destruímos os nossos ídolos e ela vem-se apresentar como o novo ídolo.
“Vede, ela fala do que é bom e do que é mau, e quer-nos umas boas e outras más, para que os bons e os maus possam morrer dentro do Estado. É preciso matar ainda a sua cultura, pois o conhecimento vem da ignorância. Não, nós não procuramos poder, tal como não procuramos o ar que respiramos. Ela quer ser o ídolo e nós as idólatras, mas eu digo-vos: ainda não aprendeu o macaco a adorar ídolos, e é por isso são.
“Afastai-vos, ó domadora de albinas feras, nós vestimos o negro, e nada temos contigo. Falais de sacrifícios a um abismo, mas o macaco não pensa em sacrifícios. É, por isso, são. Não precisamos da tua língua, o silêncio do deserto ensinou-nos tudo aquilo de que necessitávamos."
Horned Wolf
segunda-feira, 31 de maio de 2010
4.

Anal Intercourse Between Souls, Babalith
Babalith tomou o deserto, que percorreu de encontro à próxima fábrica. Até então, a sua palavra não surtira qualquer efeito digno desse nome. A condutora de leões viu aparecer no horizonte um precipício, e dentro dele, outras ravinas. Repletas de fumos e radares. Babalith reconheceu a cidade mas juraria que o deserto era, junto dela, oásis. Em cima, as mulheres lutavam umas com as outras, em ringues. Em baixo, praticavam variadas formas de amor.
Por entre uma nuvem de areia Babalith distingue a forma de um calcanhar, de um seio molhado e cintilante entre duas línguas a balançar, e foi recebida por robôs com membros de fruta e cristal, vinhos e folhas de palmeira.
Chegou-se às mulheres, e de um pináculo falou:
"Nós queremos ser poupadas da amizade e da inimizade. Minhas amantes na paz… não vos amo tanto quanto vocês se amam, porque ainda me sinto semelhante a vocês. Mas conheço o amor e o altruísmo dos vossos seios, e que não podem deixar de seguir. Ainda não sou suficientemente pequena para sentir vergonha. Sem vergonha não há amor, altruísmo ou desejo. É primeiro preciso que aprenda a apagar o meu conhecimento. Enquanto não o posso, que seja pelo menos arauta da ignorância, porque a ignorância parte do conhecimento.
"Procurai sempre uma amiga, a vossa amiga, fazei amor com ela, e partilhai pensamentos. E cada uma se esforçará para não ter razão. Não luteis e muito menos trabalheis. Não procureis vitórias mas paz. Agora que a paixão vos volta, não acrediteis, como os homens antes de nós, em boas causas, em boas guerras, e em nada que santifique. A coragem, que seja banida do vosso coração, pois nenhuma mulher precisa de coragem quando a move o amor. A bravura apaga o abismo, mas a compaixão amplifica-o: eis este o vosso paraíso. E nem tanto vos deixes comover pela beleza, excepto pela beleza do amor. Sois belas? Que importa, minhas amantes? O vosso manto é o horror, pois é essa a forma da beleza. E se disserem que tendes um coração mole, é porque se tornou verdadeiro o vosso coração. Ainda eu tenho de me tornar, como vocês, que vivem abaixo de mim, pequena.
"Na vossa sensual bondade se encontra a força e a humildade, e ambas se unem.
"O pacifismo é a nobreza da liberdade. Largai também a esperança, nenhuma mulher necessita de esperança se os seus seios se preenchem de amor. Já preparadas, não penseis, a actividade interna do amor deve varrer o pensamento da face da terra, e a mulher ser poupada.”
Horned Wolf
quarta-feira, 26 de maio de 2010
3.

A Crown of Roots, Babalith
Pondo-se de um pulo, segurou o tornozelo de uma mulher que pisava a seu lado, e apercebendo-se desperta, aproveitou a rara companhia de uma sua semelhante. Foi por isso falar-lhe no seguinte modo:
“Alguns têm vindo a dizer, que eu gostaria que tudo permanecesse como atrás permaneceu, que gostaria que houvéssemos estacionado no inicio e não mais nos movêssemos. Eu sei, mulher, que tu não dormes, porque também não acordas. Nos teus olhos estão todos os pedaços parados desta cidade, com tudo o que não significam, porque te habituaste a ver, em toda ela, a mnemónica da vida: haveis feito das grandes fábricas as árvores da vida, longe da terra, da terra esquecidas e banidas pelos tempos de todos os tempos. Agora, pensa pois, que digo que tu e todas as mulheres, e todas as máquinas, esqueçam a escrita. Sublinho que esqueçam a escrita, e que se recordem de derramar, por suas causas, sangue humano ao invés do sangue vegetal, porque esta é a forma de que a terra se volte a recordar de vós e de que não estagne a evolução da espécie viva. Todas devem desaprender a ler. Sim, se possível, que permaneça nelas a sabedoria de escrever, mas se apague toda a habilidade de ler. Depois as cidades não serão prisões, mas eternas mães em que descansar os pés cansados.”
Horned Wolf
